Conversamos com Nádia Gabriele Rudnick , associada SBAIT, que atualmente está em missão humanitária em Sudão do Sul, pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha – CICV.

Ela nos conta sobre seu dia a dia, seus desafios e perspectivas futuras. Confira e inspire-se!

 

Nadia Rudnick é uma das poucas cirurgiãs trabalhando em campo com o CICV. Ela está em missão no Sudão, onde permanecerá por dois meses. Antes de juntar-se ao time CICV, Nadia nunca havia trabalhado fora do Brasil. Uma experiência totalmente nova e um novo contexto para ela. Juba – 2019 – Florian Seriex / ICRC 

O que a fez decidir pela cirurgia do trauma?

Lembro como se fosse ontem sobre o primeiro dia que pisei num centro de trauma e senti, naquele mesmo dia, que era isso o que eu queria para a minha vida. Eu estava no quarto semestre da faculdade e foi no Hospital do Trabalhador, em Curitiba-PR, onde tive como preceptores o Dr Adonis Nasr, Dr Fabio de Carvalho, Dr Eduardo Martins, dentre outros. O Hospital do Trabalhador contribuiu muito para minha escolha, lá me sentia em casa. Acho que fiz quase todos os estágios disponíveis (Estágio no Pronto Socorro, ligante da LiaT, Voluntária do Trauma e internato). Durante um congresso SBAIT realizado em Porto Alegre, conheci o Hospital de Pronto Socorro e alguns preceptores da residência em cirurgia do trauma, como o Dr Ricardo Breigeiron. Decidi, então, fazer minha residência em cirurgia geral neste hospital, visto que lidaria com trauma durante a cirurgia geral também e em seguida faria a residência em cirurgia do trauma. A residência me proporcionou também participar do curso ATLS e após, ser instrutora do mesmo curso, visto que outra coisa que adoro é ministrar, especialmente sobre trauma.

O que a fez decidir por participar na missão humanitária?

Acho que essa é a pergunta mais difícil de responder, e nem eu mesma sei a resposta. No final da faculdade já sabia que queria ir para áreas de conflito para trabalhar com trauma. Acho que é uma força interna que te impulsiona a seguir esse caminho, realmente nunca consegui definir, nem em conversas com amigos. A única coisa que sempre soube era que queria sair em missão humanitária. Foi no congresso de trauma em Campinas que obtive meu primeiro contato com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e, um tempo depois, iniciei o processo de recrutamento.

Como está sendo sua experiência? Desde quando você está participando? Até quando ficará na missão?

Está sendo muito bacana e muito gratificante. Claro que temos muitos desafios, mas a equipe foi muito receptiva e está me dando todo o suporte. Está sendo um grande aprendizado e uma grande troca de experiências. Também fui muito bem acolhida pelos pacientes e pela população do Sudão do Sul em geral. Cheguei no começo de julho e fico até o início de setembro.

Florian Seriex ICRC

Florian Seriex ICRC

O local da missão é definido por você ou pelo CICV?

No meu caso, pelo menos, recebi a proposta para vir para o Sudão do Sul como minha primeira missão, de acordo com minha compatibilidade de datas e as datas disponíveis para o CICV. Como estou fazendo mestrado em Ação Humanitária Internacional na University College Dublin (UCD), tivemos que equilibrar o tempo disponível. E uma coisa muito interessante quando recebi a proposta: meu primeiro trabalho em equipe durante o mestrado foi sobre o Sudão do Sul! Então, fiquei muito empolgada em ir para minha primeira missão neste país.

Como é a sua rotina na missão?

Geralmente temos uma reunião logo no início da manhã e em seguida toda a equipe vai para o hospital. Então fazemos o round/visita e revisamos todos os pacientes. Em seguida vamos para o centro cirúrgico. Em média realizamos em torno de 5 procedimentos diários. Na sequência admitimos novos pacientes que são encaminhados de várias regiões do país. Temos regras de segurança específicas da organização, então há um toque de recolher no início da noite e há áreas definidas da cidade pelas quais podemos transitar e em quais horários. Tento manter algumas distrações no final do dia e finais de semana, como reunir amigos para jantar em algum restaurante ou na residência. Também assisto a filmes ou séries antes de dormir, para distrair a mente do trabalho.

Algo a marcou nessa experiência?

A força, a resiliência, a gentileza e a alegria da população que vive aqui no Sudão do Sul.

Florian Seriex / ICRC

Quais são seus planos?

Meus planos ainda não estão bem definidos. O que sei é que volto para Dublin para terminar o mestrado e pretendo partir para uma segunda missão ainda este ano. Ainda tenho um ano de mestrado pela frente.

Alguma mensagem aos membros SBAIT que tenham interesse em também participar numa missão?

Caso você realmente goste de trauma e sinta essa força interior que te impulsiona para essa direção e esteja disposto(a) a fazer alguns sacrifícios (como ficar longe da família e amigos, seguir regras de segurança, trabalhar com recursos limitados e com adversidades), você com certeza vai ter uma experiência gratificante. O CICV é uma organização que tem me proporcionado todo o suporte necessário, desde o primeiro contato. O CICV é uma excelente organização e vem fazendo um lindo trabalho. Me sinto orgulhosa em fazer parte desse time!

A SBAIT parabeniza Nádia por seu comprometimento com as missões humanitárias e por inspirar os membros SBAIT nessa trajetória. Agradecemos por sua disponibilidade e atenção ao conversar conosco, compartilhando sua experiência e também à equipe CICV, em especial a Florian Seriex , pelo envio das imagens.

Para saber mais sobre o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e como pode participar, acesse: https://www.icrc.org/pt

 

Crédito imagens: Florian Seriex / ICRC