Há mais de 50 anos, o uso de dispositivos de imobilização é a conduta padrão no Atendimento Pré-Hospitalar (APH) às vítimas de trauma em todo mundo, em especial o uso do colar cervical e da prancha longa. Os primeiros estudos que indicaram a imobilização de coluna foram publicados na década de 60, com a base teórica de prevenir lesões secundárias e evitar falhas no reconhecimento de lesões da coluna, levando em consideração o mecanismo do trauma. Nesta época, foram projetados os primeiros modelos de pranchas e rapidamente, os dispositivos e a prática de imobilização foram incorporados no APH. A prática se fortaleceu globalmente, seguindo a recomendação: “na suspeita de lesão de coluna, imobilize e na dúvida, imobilize”.

Os primeiros artigos sobre efeitos adversos do uso da prancha foram publicados na década de 80, relacionados essencialmente a quatro problemas: dor/desconforto, comprometimento respiratório, compressão de partes moles e ineficiência em garantir imobilização. Nos últimos 18 anos, houve uma discussão crescente com base na Medicina Baseada em Evidências, quanto a prática médica tradicionalmente estabelecida de imobilização no trauma. Estudos em trauma penetrante, mostraram efeitos adversos com o uso do colar cervical. Resultados também semelhantes em estudos de trauma fechado, que além dos efeitos adversos, não identificaram efeitos benéficos na evolução neurológica dos pacientes. Sugerindo que as lesões secundárias não seriam relacionadas com a falta de imobilização da coluna.

Recomendações com “imobilização seletiva” e “restrição da movimentação da coluna (RMC)” ganharam força e impulsionaram as discussões quanto às indicações, contraindicações, benefícios, desvantagens e aspectos técnicos de aplicação. Desde 2013, entidades como a americana National Association of EMS Physicians (NAEMSP) tem se posicionado com orientações sobre o uso de dispositivos de imobilização e sugerindo a diminuição do uso de prancha. Em 2018, junto com a NAEMSP, o Comitê de Trauma do Colégio Americano de Cirurgiões (ACS-COT) e o Colégio Americano de Médicos de Emergência, divulgaram um posicionamento quanto a pontos de consenso em relação ao uso de imobilização, como o uso da RMC e prancha longa.

Mais recentemente, estas discussões têm atraído interesse de diversos profissionais e serviços de APH no Brasil. A Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (SBAIT) tem acompanhado estas discussões e através do seu Comitê de Pré-Hospitalar, se posiciona em favor do fortalecimento de uma análise crítica baseada em evidências científicas, mas também considerando todas as particularidades vivenciadas pelo modelo de atendimento ao trauma no Brasil. Neste sentido, a SBAIT realizará em fevereiro o I Fórum Nacional de Imobilização no Trauma, reunindo entidades e profissionais responsáveis em oferecer as melhores práticas ao paciente vítima de trauma. Em breve , mais informações.

 

Daniel Souza Lima

Comitê de Pré-Hospitalar da SBAIT